IGREJA: Briga de Reinos na Justiça


A Igreja Universal do Reino de Deus, comandada pelo líder religioso Edir Macedo, decidiu brigar na Justiça com o ex-número dois da instituição, o bispo Romualdo Panceiro, pelo uso de marcas e símbolos supostamente pertencentes à denominação, inclusive "Jesus Cristo" e "Pomba".

Apontado por Macedo como o seu sucessor, Panceiro rompeu com o antigo chefe e lançou, no início de junho, a sua própria igreja.

O nome é praticamente idêntico ao da Universal: Igreja das Nações do Reino de Deus. A nova denominação usa como um de seus símbolos uma pomba branca, semelhante à utilizada pelo grupo de Macedo, embora esteja junto de uma cruz.

No caso de Jesus Cristo, o questionamento é motivado pela representação gráfica do nome, que segundo a Universal seria muito similiar à sua.

A Universal entrou, então, com uma ação na 1ª. Vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem do Fórum Cível de São Paulo reivindicando o direito de imagem.

A igreja de Macedo afirmou ter o registro das marcas "Universal", "Universal Igreja do Reino de Deus", "Universal Jesus Cristo é o Senhor" e "Reino de Deus".

Também disse que Panceiro utilizou "indevidamente" as marcas e outros símbolos da Universal, como "Jesus Cristo" e "Pomba", segundo o texto da ação judicial, para "solicitar doações de fiéis por meio de depósitos bancários, induzindo-os a erro".

A Universal requereu a concessão de tutela de urgência para que Romualdo e a Igreja das Nações "se abstenham imediatamente de utilizarem indevidamente e de maneira não autorizada o nome, imagem e marcas registrada da entidade religiosa", a fim "de obter vantagem econômica indevida ao induzir fiéis".

A juíza Paula da Rocha e Silva Formosa, no entanto, indeferiu a imediata suspensão do uso do nome. Panceiro disse na terça-feira (21), por meio de um porta-voz, não ter sido notificado oficialmente.

"Não sei do que se trata o processo, mas estou perplexo com essa atitude. Eu só quero fazer uma coisa: com base na Bíblia sagrada, ganhar almas falando da fé", declarou.


'Concorrência' próxima

O ex-número dois na hierarquia da Universal inaugurou a sua igreja na avenida Celso Garcia, no bairro do Brás, região central de São Paulo, nas proximidades do Templo de Salomão, o gigantesco centro religioso erguido por Edir Macedo.

Ex-responsável pela Universal no Brasil e em Portugal, Panceiro deixou a instituição em 2018. Estava na igreja havia mais de 30 anos. Sua saída foi atribuída oficialmente a "condutas inadequadas". Fora flagrado em adultério, segundo ex-colegas.

Macedo tinha uma avaliação de Panceiro completamente diferente até há alguns anos. Na biografia O Bispo, escrita em parceria com o jornalista Douglas Tavolaro e lançada em 2007 (Editora Larousse), apontou Panceiro como "o maior milagre da Igreja Universal".

E anunciou: "Se eu morrer hoje, o Romualdo assume tudo. E tenho certeza de que os demais bispos irão respeitá-lo como me respeitam hoje. A Igreja Universal não é um trabalho pessoal, mas uma obra espiritual", garantiu.

Além da falha comportamental apontada, o que mais pesou no afastamento de Panceiro foi a desistência de Macedo de alçá-lo ao posto de líder máximo da igreja no futuro. Macedo passou a dar maior espaço e visibilidade na igreja ao bispo e genro Renato Cardoso, casado com a sua filha Cristiane.

Cardoso foi consolidado como o herdeiro, o futuro comandante do império de Macedo, um conglomerado que abrange, além da igreja, a TV Record, o Banco Renner (agora Digimais) e dezenas de empresas nos mais diversos ramos, de hospitais e plano de saúde a seguradora e companhias de transporte e segurança.

Com o genro no comando, Macedo optou por deixar a igreja e os negócios com a família. A ascensão de Cardoso desagradou profundamente Panceiro, gerando atritos com o antigo líder.

Outros religiosos antigos e influentes na Universal têm feito oposição ao crescimento de Cardoso, gerando desgastes e riscos de novas rupturas.

Apesar de não ser ainda tão conhecido fora do mundo evangélico, Panceiro é visto como uma forte liderança da Universal, com ascendência sobre muitos bispos e pastores — pois ajudou a formar muitos deles —, e com poder e prestígio suficientes para arrebanhar uma leva significativa de fiéis. Internamente, tinha uma liderança maior do que, por exemplo, o bispo Valdemiro Santiago, que rompeu com Macedo e fundou, em 1998, a Igreja Mundial do Poder de Deus.

Romualdo Panceiro tem um histórico parecido com o de outros líderes da igreja. Ex-cortador de cana, foi viciado em drogas.

"Eu passava os finais de semana me drogando. Meu pai era louco. Eu não tinha o que comer. Não havia futuro para mim", contou o então aliado de Edir Macedo, na obra O Bispo.

De mero frequentador da igreja, tornou-se evangelista, depois obreiro e pastor. Dirigiu uma igreja em Copacabana, no Rio. Chegou a bispo e acumulou poder na hierarquia. Mas a relação entre ele e Macedo estremeceu. Chegaram a ter discussões ásperas, segundo ex-colegas.

Outras disputas

Além de Romualdo Panceiro, outros nove bispos deixaram a Universal nos últimos quatro anos. No ano passado, Rogério Formigoni, ex-apresentador do programa religioso Nação dos 318 (ex-Congresso para o Sucesso), dirigido a empresários e transmitido pela TV Record, foi afastado.

Formigoni abriu recentemente, em Belo Horizonte, a Igreja Hospital da Alma. O ex-bispo da Universal João Leite fundou, também em 2019, no Rio, a Igreja do Tratamento Espiritual.

Vários outros antigos bispos da Universal foram removidos por Macedo nos últimos anos, estrategicamente, para outros países. A ideia era deixar o terreno livre no Brasil para o crescimento de seu genro, Renato Cardoso.

Criticado por atuais e ex-colegas, Cardoso é visto como "inexperiente", alguém que "não ralou" e não teria contribuído "para o crescimento da instituição".

As maiores igrejas evangélicas hoje no Brasil são a Assembleia de Deus (12,3 milhões de fiéis), a Igreja Batista (3,7 milhões) e a Congregação Cristã do Brasil (2,2 milhões).

A Universal (1,87 milhão) é a quarta, e a maior entre as chamadas neopentecostais. São as igrejas que enfatizam a cura e o milagre e se identificam com a Teologia da Prosperidade, doutrina que considera a riqueza material uma benção de Deus.

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